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ENTREVISTA
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ENTREVISTA
21/06/2009

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Por Marilu Teixeira

“Se não estiver doente, com obesidade mórbida, não operamos. Temos tratamentos clínicos eficientes para a questão estética”

  “Não é que dão errado. Na Medicina, a gente não trata com matemática, como dois mais dois são quatro. Nós tratamos com biologia”

  “Todo mundo precisa ajudar a credenciar o HC para não ficar dependendo de ajuda, de politicagem”

 
 
Luiz Flávio Vilela Mesquita, 44 anos, casado, natural de Uberaba, formado pela FMTM em 1991, com especialização em cirurgia do aparelho digestivo na USP de São Paulo. Professor na Universidade de Uberaba, é hoje uma das referências em cirurgia para redução de estômago, a chamada cirurgia bariátrica. Nesta entrevista, o médico, filho do também cirurgião e vice-prefeito Paulo Mesquita, fala sobre a obesidade mórbida, uma doença que mata e que afeta 5% da população. Em Uberaba, segundo ele, são pelo menos 15 mil obesos mórbidos que necessitam da cirurgia. Lembra que a cidade não possui nenhum hospital credenciado pelo Sistema Único de Saúde para realizar a cirurgia. “Faltam ações políticas”, afirma Mesquita, cobrando atuação dos poderes constituídos.
 
Jornal da Manhã - Na última década, o número de cirurgias bariátricas realizadas pela rede pública aumentou 542%. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2001 foram 497. O número subiu para 3.195 em 2008. As cirurgias realizadas pela rede privada ou bancadas por planos de saúde têm aumentado na mesma proporção?
Luiz Flávio - Na verdade, o boom da cirurgia aconteceu nos últimos dez anos. Até então ela era restrita a São Paulo. A partir de 1999/2000 é que ela passou a ser interiorizada. E foi nos últimos dez anos que o sistema público passou a oferecer a cirurgia. Tudo era muito restrito. Somente na USP existia um serviço que realizava essa cirurgia. Mas isso foi no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, o boom foi na década de 90 e no Brasil, praticamente em 2000. Era uma cirurgia muito difícil de ser realizada porque não havia instrumentais, como não há cadeira, catraca de ônibus para obesos. Nos anos 80, o governo americano investiu muito em tecnologia, então, desenvolveram-se instrumentais, o que facilitou. Hoje, o Brasil é o segundo no mundo em número de cirurgias e de cirurgiões. Nós tivemos o professor Garrido, que era uma pessoa muito destemida, e, ao invés de ficar somente ele operando, difundiu a técnica. Hoje eu sou um de seus discípulos. Fiquei amigo dele, levei alguns pacientes para serem operados em São Paulo e ele acabou me delegando para que eu fizesse as cirurgias no interior. A primeira cirurgia em Uberaba foi ele quem fez.
 
JM - O que leva as pessoas a se submeter a esse tipo de cirurgia? O motivo é estético ou preventivo?
LF - Muitas vezes as pessoas nos procuram por questões de estética. Entretanto, a gente mostra que não fazemos a cirurgia por esse motivo. A obesidade mórbida é uma doença grave e os tratamentos clínicos existentes não são eficazes. Apesar de a família pedir, afirmar, por exemplo, que a filha vai ficar bonita, eu explico que não é uma doença grave. Por isso não operamos. Se não estiver doente, com obesidade mórbida, não operamos. Temos tratamentos clínicos eficientes para a questão estética. Então, operamos quem está com índice de massa 40 acima do peso ideal. Esses pacientes têm indicação para a cirurgia. Também quem está 35 acima do peso ideal com comorbidades, ou seja, diabetes e hipertensão.
 
JM - Dias atrás, o Chiquinho Scarpa foi internado com peritonite gravíssima depois da cirurgia. Há duas semanas, uma jovem de 23 anos de idade morreu vítima de complicações da cirurgia bariátrica, em Uberaba. Há casos e mais casos de óbito decorrente dessas cirurgias. Por que dão errado?
LF - Não é que dão errado. Na Medicina, a gente não trata com matemática, como dois mais dois são quatro. Nós tratamos com biologia. Então, em todo procedimento cirúrgico existem as complicações inerentes ao paciente. Não da cirurgia. O Chiquinho Scarpa, por exemplo, teve uma fístula, uma emenda que se abre, por algum motivo, até nutricional, ou outro que às vezes não é detectado no pré-operatório. Abre-se precocemente, cai na barriga e ocasiona a peritonite. Mas isso é um problema raro de acontecer. No caso dessa moça, me parece que foi uma embolia pulmonar. Eu tive paciente que estava em preparo para a cirurgia, teve uma embolia pulmonar e morreu antes. Então, são problemas da doença. Quando se opera a apendicite, a pessoa pode ter uma complicação e vir a óbito. Não por problema do médico, mas por problemas do paciente. Hoje, há muita confusão. A carga está muito pesada sobre o médico, porque no caso de qualquer complicação a culpa é dele. E não é. São complicações que estão escritas na literatura médica, que acontece em Uberaba, no Hospital de Clínicas e no Albert Einstein, em São Paulo, e no Memorial Hospital, de Nova Iorque, onde, às vezes, morrem pessoas que fazem cirurgias simples.
 
JM - Qual é o índice de mortalidade aceitável nessa cirurgia?
LF - No mundo inteiro, o índice aceitável é menor que 1%. Nós temos esses números no Brasil. Quando começamos a fazer essa cirurgia, no fim dos anos 90, o índice de mortalidade, na USP de São Paulo, era em torno de três a 5%. É importante mostrar que naquela época a cirurgia já era eficaz. A fila era enorme e morriam em torno de 10 a 15% das pessoas que estavam na fila de espera com a doença. Na cirurgia morriam 3%. Então, melhorou muito, tem avançado. Nosso índice fica em torno de 0,3%. Na literatura médica, até 2% é aceitável, mas falar em porcentagem é muito difícil quando estamos falando em ser humano. É uma em mil, em dez mil, mas essa uma pode ser sua filha, sua mãe, e isso causa um impacto muito grande. Então, nos cercamos do máximo cuidado, fazendo cirurgias em bons hospitais, preparados com UTI, sabendo que pode haver complicações. Temos que saber o momento certo para cuidar dessas complicações para não levar esse paciente a óbito, o que a gente nunca quer.
 
JM - Por que há necessidade de o paciente ser acompanhado por uma equipe multiprofissional?
LF - A equipe é composta por cirurgião, psicólogo, endocrinologista, cardiologista e pneumologista. Existe óbito no pós-operatório. Pode ocorrer um infarto agudo do miocárdio, que o paciente já estava propenso a tê-lo sem a cirurgia, ou um derrame cerebral, além das causas cirúrgicas, como o caso do Chiquinho, de uma peritonite causada por uma fístula. Às vezes, o paciente abusa, não segue as orientações do médico no pós-operatório imediato. Então, para a cirurgia tem que haver uma conscientização. Antes de operar, o paciente passa pelo cirurgião pelo menos quatro vezes. A gente explica à família. Dá uma sensação ruim quando se fala que uma jovem, que entrou andando para a cirurgia, morreu. Era gordinha e morreu? Não é isso, ela tinha um problema de saúde grave. Então, digo aos meus pacientes, é como se fosse minha filha ou minha mãe. Vou operá-la, sabendo que existem riscos, inclusive risco de morte. É pequeno, mas existe.
 
JM - Em que casos a cirurgia é recomendada e quem pode se submeter a ela?
LF - São pacientes com índice de massa corpórea acima de 40 e que já tentaram pelo menos dois anos de tratamento clínico, sem sucesso. Esses pacientes, dificilmente, vão conseguir perder peso e manter a perda. A expectativa de vida desses pacientes, mantendo esse peso, é de 15 a 20 anos menor que de um paciente normal. A chance de ele ter um infarto agudo do miocárdio ou um derrame é muito grande. São vários fatores para desenvolver hipertensão arterial, diabetes. Hoje, essa cirurgia cura a diabetes de grande parte dos pacientes. Então, essa cirurgia da obesidade é um avanço muito grande para a ciência. Nesses últimos dez anos, o que se avançou em endocrinologia, devido a esse boom da cirurgia, foi uma coisa impressionante.
 
JM - Mas esse é um procedimento distinto da cirurgia de diabetes?
LF - Baseado em evidências, nós vimos que a grande maioria dos pacientes diabéticos que operávamos se curavam da doença tipo 2. Poderia dizer que era devido à perda de peso, mas alguns pacientes, com quatro dias de hospital, já não tomavam mais insulina. Melhorava os índices glicêmicos. Então, começou-se a trabalhar o que era essa mudança. Hoje já existem alguns grupos experimentais no Brasil, um dos baluartes no mundo nessa cirurgia, a qual chamamos de metabólica. Existem várias pesquisas tentando fazer a cirurgia com uma técnica menos complexa que a da obesidade, que não precisa reduzir o estômago. Essas técnicas já estão bastante avançadas e acredito que nos próximos seis meses teremos novidades nessa área. Hoje, só existem protocolos de serviço, ou seja, são cirurgias experimentais. Então, elas são distintas: o paciente obeso diabético faz a cirurgia da obesidade e o diabético faz a metabólica.
 
JM - Em que condições o médico deve recusar um paciente?
LF - Aquele que não possui o índice de massa corpórea exigida, com distúrbios psiquiátricos graves e com problemas graves com contraindicação de cardiologistas e pneumologistas. Com exceção de casos de urgência, como pacientes que não conseguem mais respirar por causa da obesidade, então, é uma cirurgia de urgência, mesmo sabendo do risco. Já operamos pacientes nessas condições, mas, graças a Deus, tivemos sucesso. Por outro lado, se o paciente ficasse um ano como estava, morreria por asfixia.
 
JM - Por que as pessoas engordam tanto hoje em dia, inclusive crianças? Falta educação alimentar aos brasileiros?
LF - É o modo de vida das pessoas. Quando eu tinha entre 14 e 15 anos, ia a pé à escola, jogava bola na rua. Hoje em dia as crianças vão de carro ou de ônibus para a escola. Chega em casa, toma Coca-Cola, come biscoito e vai para a frente do computador. Então, é a mudança de vida do mundo, não é do brasileiro. É o sedentarismo e o mau hábito alimentar. Além da falta do esporte, come-se mal, só enlatados e refrigerantes. A insegurança também contribuiu muito para isso. Os pais têm medo de deixar as crianças irem sozinhas à escola, para um treino de futebol. Podem ser assaltadas. Isso dificulta a prática do esporte. Na verdade, não é falta de educação, mas, a condição do mundo, com a insegurança, alimentação, desinformação, computadores. Tudo isso veio atrapalhar.
 
JM - Na opinião do senhor, a política do governo é falha nesse sentido?
LF - Sim. O governo tem que oferecer informações melhores, estimular o esporte e a boa alimentação. Tem que fazer campanhas. Nos Estados Unidos, o problema é maior, mas o governo investe nisso. No Brasil, temos 5% de obesos mórbidos, ou seja, 10 milhões que precisam de cirurgia. É um número muito grande. Já foram operados, nesses últimos dez anos, entre 300 mil e 400 mil, no máximo. Em Uberaba, temos mais de mil pacientes operados.
 
JM - Em Uberaba, essa cirurgia já está disponível pelo SUS?
LF - Uberaba não tem nenhum serviço credenciado pelo SUS. Já tentamos credenciar o Hospital de Clínicas da UFTM ou outro hospital, mas não sei o que acontece. Aqui tudo é travado. Eu fiz algumas cirurgias que a Prefeitura me pediu. Depois, teve verba do Estado para o HC fazer 40 cirurgias. Uberaba precisa credenciar o serviço. O mais habilitado é o HC, que tem toda a estrutura e já fez quase 50. Está provado que pode fazer.
 
JM - O senhor avalia que falta uma ação política?
LF - Sem dúvida, falta ação política. O Município precisa ajudar, assim como o Estado, os deputados federais, estaduais e o prefeito. Todo mundo precisa ajudar a credenciar o HC, para não ficar dependendo de ajuda, de politicagem. Fez 50 porque um deputado conseguiu. O outro não conseguiu. Credenciando o serviço, tem um protocolo, e se tem mil pacientes para operar, faz mais cirurgias, inclusive com mutirão.
 
JM - No Hospital de Clínicas, 65 pacientes estão na fila de espera. Qual o tamanho da fila na rede particular?
LF - A fila é bem maior.Na verdade, o HC tem esse número porque a lista é restrita. Se abrir, falar que está credenciado, esse número vai aumentar muito, para pelo menos três mil. Se calcularmos que Uberaba tem 300 mil habitantes e 5% da população são obesos, temos 15 mil obesos mórbidos que necessitam da cirurgia. Vamos supor que, em Uberaba, 1.500 já foram operados, então operamos 10%.
 
JM - Quais as alternativas para evitar a cirurgia?
LF - As alternativas, hoje, são muito restritas. Dietas, medicamentos que apresentam alguns efeitos já comprovados, mas é muito pouco. Tem ainda alguns procedimentos paliativos, como o balão intragástrico, que não é cirúrgico, mas endoscópico, e spa, que resolve parte dos problemas. Porém é bom ressaltar que a obesidade está no quadro cirúrgico hoje. Dentro de alguns anos, entre 15 e 20, vai existir um medicamento certo para a doença. Um exemplo é a úlcera. No tempo de meu pai [Paulo Mesquita], operava. Eu, em 17 anos de formado, se operei, foram três pacientes. Na época dele, eram operados cinco a seis por semana. Hoje existe medicamento para úlcera, mas não existe medicamento para obesidade. Nós vamos esperar aparecer o medicamento? Não. Se esperar, o paciente pode ir a óbito. Então, temos que caminhar junto com a tecnologia. Tenho certeza que no futuro o tratamento será clínico.
 
JM - O que há de mais moderno nessa área é a cirurgia?
LF - Sim, é a cirurgia, no mundo inteiro.
 
JM - Em que condições os planos de saúde cobrem a cirurgia?
LF - Normal. Os planos de saúde de Uberaba – e temos que elevar isso – cobrem a cirurgia. A Unimed de Uberaba foi uma das primeiras do Brasil a pagar essa cirurgia. Acho que todos os planos regulamentados pagam. Como o SUS paga, o procedimento está no rol das cirurgias pagas aos beneficiados de planos de saúde.
 
JM - Quanto custa uma cirurgia dessas, seja particular ou pelo plano de saúde?
LF - Varia muito. Tem a cirurgia por vídeo, que é menos invasiva, e a aberta. Mas é uma cirurgia que seu custo gira em torno de R$ 10 mil a R$ 20 mil.
 
JM - Qual é a técnica utilizada pelo seu grupo?
LF - É a Fobi-Capella. Fobby é um cirurgião negro, da Califórnia, e Capella é um colombiano radicado em New Jersey. A técnica não tira nada do organismo. Fazem-se dois estômagos: um pequeno, onde passa o alimento, e um grande, que continua produzindo o suco gástrico. No intestino também se faz um desvio. Uma parte do intestino é emendada no estômago pequeno e a outra, no estômago grande. Ainda é colocado um anel nesse estômago pequeno para que ele não dilate com o tempo. A parte do intestino que não produz o suco gástrico não absorve nutrientes e o paciente perde peso pela não-absorção e por comer pouco. A perda de peso é em torno de 40% depois de um ano. Na verdade, essa cirurgia bariátrica é feita há mais de 50 anos. No decorrer do tempo as técnicas foram melhorando, até chegar a essa, que é a que apresenta menos problemas.
 
JM - Com a falta de absorção, o paciente tem que receber outros tipos de suplementos?
LF - Normalmente, após três meses da cirurgia, o paciente tem que receber suplementos vitamínicos. Mas são suplementos normais, desses que as pessoas, após os 40, 50 anos, deveriam usar. A gente sempre indica. Mas o paciente tem que ter acompanhamento regular no primeiro ano. Ele tem que saber que a cirurgia é um passo numa reeducação alimentar e que precisa seguir as orientações médicas durante um ano. Depois desse tempo, precisa passar pelo médico uma vez por ano para ver alguma deficiência, principalmente de vitamina B12. Não adianta pensar que operou e acabou. Não é mágica.
 
 
Hospital de Clínicas aguarda credenciamento
 
A maioria das cirurgias, pelo menos 90%, é realizada no Hospital São Marcos, pelos médicos Luiz Flávio Mesquita, Paulo Mesquita, José Humberto Lacerda e Juverson Alves Terra Junior.
No Hospital de Clínicas da UFTM, convênio assinado em 2007 com a Secretaria de Estado da Saúde, no valor de R$ 237.432, para 40 procedimentos, permitiu a realização de 48 cirurgias.
Segundo o médico Alex Augusto Silva, do Departamento de Cirurgia da UFTM, o número pode chegar a 50. De acordo com ele, a universidade aguarda credenciamento junto ao SUS, mas o processo é lento e burocrático. Enquanto isso, a instituição tenta novo convênio com a SES para a realização de outras 65 cirurgias em pacientes que aguardam na fila.

A cirurgia bariátrica realizada pela equipe do HE é a Fobi-Capella, que consiste numa redução do reservatório gástrico para cerca de cinco a 10% da sua capacidade.

 







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