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ENTREVISTA
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ENTREVISTA
22/01/2017

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Conhecidas como “boticas”, as primeiras farmácias abertas no Brasil surgiram na mesma época em que as enfermarias criadas dentro dos colégios jesuítas presentes de Norte a Sul do país. Naquela época o povo do Brasil colonial encontrava drogas e medicamentos vindos da Europa. Somente em 1931, por meio do Decreto nº 20.377, assinado por Getúlio Vargas, a profissão de farmacêutico foi finalmente regulamentada, passando a ser exercida apenas por especialista diplomado em instituições de ensino oficialmente reconhecidas. Mesmo antes dessa regulamentação, em Uberaba, a Farmácia São Sebastião já tinha a preocupação de oferecer um atendimento profissional desde 1877, sendo uma das primeiras a manipular ervas medicinais, preparar medicamentos e pomadas na região.

Já se passaram 140 anos e este comprometimento com o atendimento especializado continua sendo oferecido na Farmácia por novas gerações de farmacêuticos. É o que contam as profissionais Ana Maria Pires e Teodora Dalva Guimarães Pires. 

Jornal da Manhã - A Farmácia São Sebastião comemorou no dia 20 de janeiro, 140 anos de funcionamento em Uberaba. Conte um pouco dessa história.
Teodora Dalva Guimarães Costa –
O fundador desta farmácia foi Sebastião Costa Teles, um farmacêutico formado em Coimbra, que veio para Uberaba em 1877 e fundou a farmácia ali na rua Manoel Borges. Tinha pouquíssimas farmácias na época e ele atuou nela por mais de 30 anos. A história veio de Portugal, o título do santo protetor e o Dia do Farmacêutico. Não foi mera coincidência, foi algo programado por ele. Depois de 120 anos na rua Manoel Borges, foi vendido o prédio e, na época, procuramos saber se conseguíamos tombar o imóvel antigo para continuar a farmácia, mas por questões políticas não conseguimos e o imóvel histórico foi demolido. Naquela época, a farmácia já era responsabilidade nossa (de Teodora e Ana Maria Pires, atual sócia-proprietária). Desde então, ela sempre foi passada para farmacêuticos. 

JM - Que fatos foram marcantes nessa história de mais de um século de existência?
Teodora Costa –
O mais marcante é que a Farmácia São Sebastião sempre primou pela qualidade, seriedade e confiabilidade. Foi a primeira farmácia do Triângulo Mineiro. Por isso, vinham pessoas até do interior do Estado de Goiás. Hoje nós vemos essa preocupação com a febre amarela, mas entre 1906 e 1910 houve um surto da doença e as pessoas vinham do Estado vizinho e de todo o Triângulo, a cavalo, para fazer a medicação na Farmácia São Sebastião. Amarravam o cavalo na porta da farmácia e, algumas vezes, esperavam até o cair da noite para o medicamento ficar pronto e poderem voltar para casa. Ou seja, tinha essa tradição da qualidade do atendimento, tanto que continuamos no mercado até hoje. 

JM - A data de fundação da farmácia se confunde com o Dia de São Sebastião, padroeiro dos farmacêuticos e também com o Dia do Farmacêutico. Por que a Farmácia São Sebastião, desde a fundação, tem a preocupação de ser dirigida por farmacêuticos?
Teodora Costa -
Para falar a verdade, farmácia tem que ser de farmacêutico. É uma aberração ter fugido dessa linha, permitindo que farmácias fossem dirigidas por proprietários leigos. Porque farmácia é um estabelecimento de saúde. Foi no período da Ditadura Militar, quando vieram as multinacionais para o Brasil, para a venda de medicamentos prontos, que o farmacêutico foi desaparecendo do mercado e foi surgindo o comerciante de medicamento. Também foi assim que, no lugar dos estabelecimentos de saúde ou farmácias, onde se manipulam medicamentos, surgiram as drogarias, onde se vende a droga na sua embalagem comercial, como outro produto qualquer, infelizmente. 

JM – E por que é importante esse atendimento ser feito por um farmacêutico ao invés de um mero atendente?
Teodora Costa –
Porque o farmacêutico é o profissional capacitado e habilitado para falar sobre o medicamento, desde a sua pesquisa até a dispensação. Dentro da faculdade, ele aprende as disciplinas de Farmacologia, Farmacotécnica, Farmacocinética dos medicamentos, entre outras e, às vezes, peca um pouco na questão comercial, por se ver muito ligado à questão da saúde, mas o farmacêutico é o único profissional capaz de lidar com o medicamento. A arte de manipular é do farmacêutico, enquanto a prescrição do princípio ativo da fórmula é do médico, mas temos um canal de comunicação com os médicos para quando entendemos que é preciso mexer no princípio ativo ou adequar a dosagem por conta de interações químicas de uma substância com outra.  

JM - Antigamente, a farmácia funcionava praticamente como um posto de saúde, sendo o ponto de referência para quem precisava de algum atendimento. O que mudou de lá para cá?
Teodora Costa –
Quando as farmácias eram do farmacêutico, as pessoas se dirigiam até um estabelecimento de saúde, onde elas encontravam profissionais. A partir do momento que a farmácia deixou de ter no seu balcão só o farmacêutico, ainda bem que mudou o esquema de saúde do país, caso contrário seria o caos. Antes as pessoas se dirigiam à farmácia como se fosse ao posto de saúde e o farmacêutico fazia o papel de médico, padre e psicólogo, porque sabiam que iam encontrar um profissional habilitado. 

Ana Maria Pires – Hoje nós temos um maior número de médicos e uma assistência em saúde, o que garantiu atendimento para a população com a falta de farmacêuticos, mas a Farmácia São Sebastião sempre manteve a preocupação de ter o farmacêutico dando atenção à saúde, no balcão. Por outro lado, hoje já estamos voltando a ter a exigência da presença do farmacêutico também nas drogarias para que o atendimento seja de saúde e não uma relação comercial. Até porque, o farmacêutico é a última pessoa que fala com o paciente antes dele iniciar o tratamento, e a sua orientação visa encorajar o paciente, dando suporte para que ele faça uso do medicamento corretamente. O farmacêutico estabelece um elo de confiança com o paciente, que às vezes tem mais coragem de falar sobre uma dúvida para ele do que para o médico. Por isso, esse contato final é importante. 

JM - Segundo levantamento realizado pelo Sebrae/Minas, cada uberabense gasta, em média, R$521 por ano, em medicamentos. Como analisar o papel do farmacêutico para evitar a automedicação?
Teodora Costa –
Automedicar é uma questão cultural. A vizinha, a tia, o compadre, todos servem para fazer uma prescrição de medicamento e vejo a questão com muita seriedade, que só seria barrada na farmácia. Porque o farmacêutico sempre pergunta se a pessoa tem alguma indicação médica e se sabe por que vai tomar determinado medicamento. Hoje, as pessoas tomam antinflamatórios como se tomassem analgésico e quando falamos sobre os riscos do uso sem indicação a maioria sempre retrai. Para mim, é fácil, eu tenho para vender, mas não vale a pena sem indicação, por conta dos efeitos colaterais. Hoje existe a lei que exige receita médica para a venda de antibióticos, mas precisou de muitas pessoas morrerem com infecção hospitalar para uma ação que já deveria estar acontecendo há 40 anos. 

Ana Maria Pires – Uma questão preocupante é ver muitas pessoas hoje tomando medicamentos indicados pela internet e a Anvisa não consegue normatizar isso para o bem do consumidor. É uma fatia do mercado que todos brigam por ela, mas que esquecem que medicamento não é bem de consumo. Medicamento é uma questão de segurança e saúde. Muitas pessoas vão às farmácias procurando comprar aquele medicamento que já leram muito a respeito na internet, e que geralmente promete ser milagroso. 

JM – Vemos muito a procura por medicamentos que prometem resultados estéticos, produtos contra obesidade, depressão e ansiedade. É mesmo uma tendência da modernidade?
Ana Maria Pires –
É uma tendência forte. As pessoas leem muito na internet, a divulgação sempre apela para o milagre, em que se procura determinada medicação para emagrecer sem esforço ou acabar com a celulite sem malhar, por exemplo. São situações que vemos muito, por isso paramos para analisar o que realmente tem fundamento. Antes de realizar a manipulação, procuramos ter os princípios ativos nos quais percebemos um real fundamento científico. Não acompanhamos modismos, verificamos resultados de estudos científicos e buscamos ativos que oferecem tranquilidade quanto ao uso. 

JM - Quais as vantagens do medicamento manipulado em relação ao “industrializado”?
Teodora Costa –
A primeira vantagem é a individualização da dose. O medicamento é usado de acordo com a patologia, peso corporal e todo o metabolismo da pessoa. Já o medicamento disponível no comércio tem, por exemplo, 50 mg, mas para mim, com a minha idade e as minhas patologias essa dosagem não é adequada, o que pode ser adequado através da manipulação. A segunda vantagem é colocar dentro da formulação mais de uma substância, verificando bem as interações químicas. Para o paciente é uma vantagem importante e exerce até um fator psicológico. Temos pacientes que diziam tomar cinco medicamentos, mas que hoje tomam só um. Ao observar a fórmula é possível ver que no único comprimido tem os cinco princípios ativos que ele precisa. Outra questão é o custo, aqui na Farmácia trabalhamos da seguinte forma: se uma pessoa vier fazer um medicamento manipulado e houver no mercado o medicamento pronto, na dosagem adequada e preço igual ou inferior, nós orientamos que neste momento o manipulado não vale a pena. 

JM – Ainda conforme estudo do Sebrae/Minas, Uberaba tem, atualmente, 145 empresas que atuam no setor farmacêutico, o que corresponde a uma farmácia para cada 2,2 mil habitantes. A proporção é quase quatro vezes maior que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde, que é de uma farmácia para cada oito mil habitantes. Existe algum ponto positivo nesta grande concorrência?
Teodora Costa –
A concorrência faz diminuir os preços dos medicamentos, mas com tanta variedade, o consumidor acaba ficando meio perdido. Nem sempre é vendido para ele só aquilo que ele precisa e tudo aquilo que ele espera que tenha boa qualidade. Quem tem condições vai ao médico e vai à farmácia comprar o medicamento com a receita, já respaldado; mesmo chegando com aquele monte de receitas parecendo que está em um mercado, o problema é a adequação do medicamento e a qualidade do atendimento, com orientação farmacêutica. Agora, aquele paciente que não foi ao médico e que corre de uma farmácia para outra buscando preço, está desprotegido e corre o risco de sair da farmácia levando para casa muito medicamento de que não precisa realmente. Tem demanda para essa concorrência e as grandes redes às vezes oferecem vantagens, mas nada substitui a qualidade, a segurança e a orientação do atendimento com o farmacêutico.







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