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ENTREVISTA
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ENTREVISTA
20/03/2016

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Por: Marconi Lima

 

Fotos/Sérgio Teixeira

Guido Bilharinho é escritor, membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro

 

Não é a primeira vez no Brasil que movimentos populares ganham as ruas para protestar contra governos e contra a corrupção. O advogado e historiador Guido Luiz Mendonça Bilharinho traça alguns paralelos entre as manifestações ocorridas no século XX, na década de 50, contra Getúlio Vargas, e as dos anos 90, que culminaram com o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Figura conhecida e respeitada em Uberaba, ele avalia que não basta o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) para resolver os problemas da corrupção no país. Ele entende que, sem mudanças no atual sistema político, corre-se o risco de a nação apenas se livrar de um governo e um partido político, sem verdadeiramente acabar com a corrupção. Em entrevista especial ao Jornal da Manhã, Guido mostra muito do seu conhecimento político e histórico.

Jornal da Manhã – Em 1992 foi registrado um fato inédito na história do Brasil: um presidente, Fernando Collor de Mello, teve o mandato cassado pelo Congresso Nacional através de um processo de impeachment. Quais as semelhanças entre o que aconteceu naquela época e o que estamos vivenciando hoje?
Guido Bilharinho – Podemos traçar um duplo paralelo. Um sob o aspecto formal, pois o impeachment é um julgamento praticamente político. Tanto que o [ex-presidente e hoje senador Fernando] Collor renunciou ao mandato e depois foi impedido [em julgamento feito pelo Senado]. Mas, depois que o julgamento seguiu para o Supremo Tribunal Federal (STF), ele foi inocentado, pois não encontraram provas daquilo que ele foi acusado. Mas, na época houve uma manifestação muito forte da mídia, que relatou vários atos dele com o empresário PC Farias [tesoureiro da campanha de Collor à Presidência da República] que provocaram indignação popular, principalmente da juventude, que saiu às ruas para pedir o impeachment do presidente.

JM – E qual foi o outro paralelo?
Guido Bilharinho – O povo está nas ruas novamente pedindo um impeachment. Naquela época e agora há um fundamento de que, quanto aos atos que foram cometidos pelo presidente Fernando Collor, o STF entendeu que não seriam suficientes para condená-lo. Hoje, há um escândalo na Petrobras [caso conhecido como petrolão, onde um esquema de desvio de recursos da estatal serviu para abastecer campanhas políticas]. Houve uma promiscuidade muito grande entre os políticos e as empreiteiras. Mas atualmente estamos percebendo um direcionamento unilateral, apenas contra um partido político, o PT. Ontem até o [professor] Pasquale Cipro Neto escreveu um artigo em um grande jornal, no qual ele disse que, sempre que há uma denúncia contra o PT, aquilo é tomado como verdade absoluta. Agora, quando envolve o PSDB, o assunto é tratado superficialmente.

JM – Algumas pessoas questionam o fato da legitimidade de um Congresso Nacional, onde os presidentes da Câmara e do Senado enfrentam problemas com a Justiça. Inclusive, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, é réu no STF na operação Lava-Jato, por recebimento de propina de US$5 milhões em negócios da Petrobras...
Guido Bilharinho - Então, não podemos acreditar que um processo de impeachment de um presidente da República seja comandado por um deputado que tem conta na Suíça e está sendo processado. E a mídia nacional não trata dessa questão, enfoca apenas a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Então, nós precisamos entender o que está por trás disso. A grande mídia não é sincera quando trata dessa questão, pois, além da Petrobras, cujas denúncias são gravíssimas, é um absurdo. Mas, existem também o problema de pagamento de propinas em Furnas; o "trensalão", em São Paulo [esquema de cartel nos contratos de trens e metrôs em São Paulo, envolvendo governos do PSDB, desde a gestão Mário Covas]; o mensalão do DEM, em Brasília; o "merendão", em São Paulo [esquema de superfaturamento e corrupção na compra de merenda escolar no governo de São Paulo e prefeituras paulistas]... Então, infelizmente, é uma situação generalizada. A mídia hoje é quem comanda essa situação e muitas pessoas que vão às ruas não têm essa noção e acreditam que vão acabar com a corrupção. Mas, não vão!

JM – Em 1992, o sentimento de quem foi às ruas era de que a queda do presidente Collor colocaria um ponto final na corrupção no Brasil. Naquele tempo, a sociedade também não aguentava mais tanta corrupção...
Guido Bilharinho – Esse sentimento contra a corrupção, o povo tem de uma maneira geral, embora muitos eleitores que se dizem indignados ainda votem e elegem políticos que já foram denunciados, alguns presos e até algemados. O critério de escolha do eleitor é múltiplo.

JM – Nós falamos de um movimento de impeachment em 1992, mas em meados da década de 50 houve também uma forte reação popular e da mídia ao que chamaram de “mar de lama”, no governo de Getúlio Vargas, na época considerado um governo corrupto. Ele não suportou a pressão e cometeu suicídio...
Guido Bilharinho – Em 1953, Getúlio Vargas criou a Petrobras, impedindo que as multinacionais explorassem o petróleo brasileiro. E se preparava para criar a Eletrobras, que iria nacionalizar as empresas subsidiárias estrangeiras que exploravam o serviço de fornecimento de energia elétrica. E aí surgiu essa história do mar de lama. Não tinha mar de lama algum. O Getúlio era um nacionalista, um patriota, um presidente honesto. Mas a imprensa da época, a banda de música da UDN (União Democrática Nacional), os deputados da UDN e o Carlos Lacerda criaram um clima que influenciou a opinião pública e levou o Getúlio ao suicídio.

JM – Mas a questão da exploração do petróleo hoje teria alguma influência no momento que estamos enfrentando?
Guido Bilharinho – Existem duas coisas importantes. Uma é a exploração do pré-sal, em que os governos de Lula e Dilma Rousseff deram à Petrobras o direito de exploração. E, recentemente, o Senado aprovou um projeto do senador José Serra (PSDB) que permite a exploração também por empresas estrangeiras. O Serra pretende se candidatar à Presidência da República. Como já vimos, as campanhas políticas são abastecidas com doações.

JM – Aí envolve uma conjuntura mais ampla, da economia mundial...
Guido Bilharinho – Acabou a guerra fria e agora se iniciou uma nova polarização com os Estados Unidos. Temos aí no cenário econômico mundial os Brics [Brasil, Rússia, Índia, China, e África do Sul], um bloco fortalecido nos governos Lula e Dilma. E montaram até um banco de estatura mundial, com sede em Pequim, capital da China. Então, tenha certeza, se a Dilma cair, o Brasil deve congelar, se não deixar de participar dos Brics. Essa é uma guerra geopolítica, planetária.

JM – O governo do PSDB defendia o fortalecimento da Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Os Estados Unidos têm interesse no enfraquecimento do governo brasileiro?
Guido Bilharinho – Os Estados Unidos e alguns países da Europa enfrentam sérios problemas econômicos e isso é normal. É um ciclo, daí surgem novas potências econômicas. Os Estados Unidos sempre foram o nosso maior parceiro comercial. Mas, nos últimos anos, a China cresceu a sua participação, comprando, por exemplo, a nossa soja, o minério de ferro. Os Estados Unidos são grandes produtores de soja, um grande rival do Brasil para a venda de soja no mercado mundial. Isso não é gratuito, por isso temos que estar atentos a essa campanha exagerada contra o PT.

JM – Os partidos da base aliada ao governo, mesmo envolvidos no petrolão, quase não tiveram sua imagem arranhada...
Guido Bilharinho – Veja o caso do PMDB. Ele participou do governo, nomeou diretores para áreas importantes da Petrobras e ficou comprovado que havia corrupção nas pastas indicadas pelo PMDB. Então, entendo que deveria haver uma campanha contra o [vice-presidente] Michel Temer. O PP foi outro partido a indicar pessoas para a Petrobras. Então, por que essa campanha apenas contra a Dilma, que é uma mulher honesta e não tem conta na Suíça? Agora, quem tem conta na Suíça é apoiado.

JM – Mas o PT, por estar na Presidência há 13 anos, tem uma grande responsabilidade em tudo o que aconteceu na Petrobras...
Guido Bilharinho – Não tenha dúvida. O PT tem enorme responsabilidade. O PT errou, a Dilma errou. A presidente, na condução econômica do país, foi muito mal. Ela e sua equipe econômica seguraram os preços da gasolina, o que foi um erro. A nomeação do Lula, se foi uma estratégia para ajudar juridicamente o ex-presidente, foi um erro. Mas, talvez tivessem que fazer. Agora, por que não falamos do Congresso Nacional? O Legislativo votou pautas-bomba que prejudicaram o país, ninguém falou nada. Estão manipulando as emoções populares. E o povo não tem ideia do que realmente pode estar em jogo.

JM – Há muito mais agentes políticos envolvidos do que simplesmente um partido e dois personagens...
Guido Bilharinho - Estão usando o tema da corrupção, o tal do mar de lama, como fizeram com o Getúlio. No caso do Getúlio, mostrou-se que não tinha nada. Hoje existe. A Petrobras foi pilhada pelo PT, PMDB, que vai assumir o governo e ninguém fala nada, e o PP.

JM – Hoje, no lugar do mar de lama, veio o petróleo...
Guido Bilharinho – É verdade. Mas não podemos nos esquecer de um esquema montado em Furnas também para abastecer campanhas políticas. Tem o mensalão do PSDB, em Minas, que até já resultou em condenação do ex-governador Eduardo Azeredo em primeira instância. Tem o mensalão do DEM, em Brasília, que resultou na cassação de mandato do ex-governador José Roberto Arruda. O senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, foi citado algumas vezes em delações premiadas como beneficiário do esquema de Furnas. E a mídia só enfoca o PT.

JM – E como o senhor avalia o papel do Judiciário, em especial do juiz Sergio Moro, hoje considerado um herói nacional?
Guido Bilharinho – Parece-me muito claro que tanto o juiz Sergio Moro quanto a força-tarefa formada pelos promotores de Justiça em Curitiba trabalham unilateralmente e são parciais. Eles só liberam informações das investigações que envolvem o PT. Por que não divulgam o que existe contra o PMDB e o senador Aécio Neves? Eu falo isso não é para isentar o PT. O PT é culpado e não merece continuar a governar o país. Agora, o Paulinho da Força (SD) - réu em ação no STF por crime contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha - e o correntista da Suíça têm alguma moral para exigir o fim da corrupção?

JM – Em 1992, o então presidente da Câmara Federal, Ibsen Pinheiro, que conduziu o processo de votação do impeachment naquela casa legislativa, tempos depois foi cassado no escândalo que ficou conhecido como “anões do orçamento”. Além dele, o deputado Genebaldo Correia, muito influente no PMDB, também foi cassado e o José Genoino, do PT, condenado no escândalo do mensalão petista...
Guido Bilharinho – Quem deve é que primeiro aponta o dedo, justamente para desviar a atenção e procurar uma forma de se blindar das denúncias. Veja você, o [deputado federal Paulo] Maluf está na comissão especial do impeachment. Olha que interessante, ele foi condenado na França! Que esquisito ele ser condenado na França por desvio de dinheiro quando era prefeito de São Paulo! Então, ele teria que ser condenado na Justiça brasileira.

JM – O olhar sobre a corrupção teria que ser ampliado?
Guido Bilharinho – O que precisamos nesse momento é de frieza, imparcialidade, honestidade, e não de cinismo.

JM – Mas a Justiça deveria corrigir as distorções que por acaso existirem...
Guido Bilharinho – Mas o juiz Sergio Moro é parcial. Ele espionou a presidente da República. Ele é juiz da 13ª Vara Criminal do Paraná, mas está com jurisdição nacional. Daqui algum tempo até o presidente dos Estados Unidos corre risco, tamanha a força que estão dando para o juiz Moro.

JM – A opinião pública apoia fortemente as ações do juiz Sergio Moro, mesmo quando as decisões dele são contestadas no meio jurídico...
Guido Bilharinho – Mas nós não podemos embarcar nessa. Especialmente a classe empresarial, que está embarcando em uma onda como se fossem jovens adolescentes sem nenhuma responsabilidade com as coisas.

JM – Em 1992, o país se uniu pelo impeachment. Esse era um desejo quase que unânime na sociedade. Hoje, criaram a divisão entre o que chamam de petralhas e coxinhas...
Guido Bilharinho – Sim, naquela época havia essa unidade nacional. Agora a tática é usar o poderio da mídia para causar uma comoção pública. Mas, tiveram um motivo, pois o PT se inebriou pelo poder e entrou no jogo sujo do sistema político. Agora, recentemente, saiu na grande imprensa uma entrevista com um líder ruralista, que disse: “O impeachment não pode ser da Dilma, tem que ser do sistema político, se continuar o sistema como está, não adianta!”. É preciso reformar o nosso atual sistema político.







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