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ENTREVISTA
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ENTREVISTA
13/07/2015

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Uberabense Romeu Sérgio Meneghelo é diretor da Divisão de Diagnóstico e Terapêutica no Instituto Danze Pazzanese e coordenador do Setor de Métodos Gráficos do Hospital Albert Einstein, em São Paulo

Graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM), em 1971, e doutor em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em 2000, atualmente, Romeu Sérgio Meneghelo é diretor da Divisão de Diagnóstico e Terapêutica no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e coordenador do Setor de Métodos Gráficos do Hospital Albert Einstein, ambos em São Paulo. Hoje, o uberabense atua principalmente nas áreas de Teste de Esforço, Teste Cardiopulmonar, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular. Na entrevista ao Jornal da Manhã, o cardiologista traz aos leitores informações importantes sobre como manter a saúde do coração em dia. 

Jornal da Manhã – Como o senhor vê a cardiologia brasileira? Está em paridade com o que é desenvolvido em países do Primeiro Mundo?
Romeu Sérgio Meneghelo –
 Sem nenhuma dúvida, a cardiologia brasileira caminha absolutamente paralela à cardiologia do mundo. Não há nenhum tipo de diagnóstico e de tratamento que nós não tenhamos no Brasil. É claro que o nosso sistema de saúde é que muitas vezes não consegue levar tudo isso que nós temos a toda população. Hoje, centros terciários como o Dante Pazzanese e o InCor, em São Paulo, são duas instituições, assim como existem outras nas capitais do Sul e do Nordeste que têm o mesmo tipo de qualidade de hospitais de fora. Nós participamos de todas as grandes pesquisas do mundo. No Dante Pazzanese, tivemos a primeira cirurgia com Adib Jatene, a primeira coronariografia com Eduardo de Sousa, a primeira cirurgia de ponte de safena com Adib Jatene, o primeiro stent em humano com o Eduardo, no Dante Pazzanese, assim como o primeiro stent farmacológico e, agora, o stent absorvível. Então, não há dúvida de que estamos muito bem, até mesmo nos transplantes. 

JM – Quando se fala em saúde do coração e do sistema que o envolve, quais são as principais preocupações hoje?
Meneghelo – 
Temos que nos preocupar exatamente com a prevenção e o combate aos fatores de risco, que não são feitos de forma adequada. Hoje nós temos decréscimo da mortalidade para os homens, no país inteiro, por doenças cardíacas e cerebrovasculares, o que também está ocorrendo entre as mulheres. E isto está acontecendo porque nós estamos melhorando o tratamento das doenças cardíacas. Se nós considerarmos a prevenção da doença, talvez nós não estejamos fazendo a lição de casa adequadamente. É muito mais fácil prevenir do que tratar de forma sofisticada. Muitas críticas se fazem a esse decréscimo da mortalidade por melhoria do tratamento, mas a dúvida é se a prevenção que estamos preconizando está sendo feita. Nós achamos que não está porque existem hábitos arraigados e falta de informação, e é só com conhecimento que vamos convencer as pessoas a não fumar, ter uma redução do colesterol, combater a obesidade e o sedentarismo, bem como tratar a hipertensão, sobretudo normalizar a pressão. Se tomar um remédio e a pressão não baixar, não adiantará nada. Assim também os diabéticos que não controlam a sua glicemia. Estes são fatores que precisam ser atacados e, obviamente, isso só se faz com grandes campanhas populacionais, em que o governo e sociedades médicas devem participar. No meu ponto de vista, isso ainda é aquém do necessário. 

JM – Quanto à questão da alimentação, que tipo de orientação pode ser dada à população para se prevenir dessas doenças cardiovasculares?
Meneghelo –
 Uma grande preocupação que a sociedade médica tem hoje é com o sal, principalmente o presente nos alimentos industrializados. Foi a Sociedade Brasileira de Cardiologia, em especial o grupo do Departamento de Hipertensão, que há alguns anos fomentou este problema e buscou as indústrias para que o sal fosse diminuído. Eles alertaram também o governo, que encampou a ideia de forma muito acertada. O Ministério da Saúde, então, fez alguns contatos e promessas foram feitas, por parte das indústrias, para que houvesse uma redução gradativa do sal, a qual vai se dar de forma expressiva nos próximos anos. Acordo entre Ministério da Saúde e a Associação das Indústrias da Alimentação possibilitou que, em três anos (2011-2014), fossem retiradas 7.652 toneladas de sódio dos alimentos. Diminuindo o sal, é possível reduzir os casos de hipertensão e consequentemente o índice de mortalidade. São aspectos relacionados às gorduras trans que também promovem oxidações e problemas metabólicos que podem facilitar a aterosclerose. Acredito que estas são preocupações da população e da sociedade médica que devem ser consideradas. 

JM – Até que ponto é mito ou verdade o fato de a carne vermelha, assim como gema do ovo, ser prejudicial à saúde do coração?
Meneghelo – 
Na medicina, aproveitamos as verdades até que elas durem, porque as pesquisas evoluem. O que nós sabemos hoje é apenas que 30% do colesterol LDL, que é ruim, é produzido pela alimentação. Os outros 70% são do próprio metabolismo da pessoa, ou seja, fabricados pelo organismo, que tem o gene para fabricação de alta quantidade de colesterol LDL. Então, só consigo atuar de forma expressiva na alimentação em 30% do colesterol. Isso significa que não vai ser um ovo que a pessoa possa comer ao dia que vai alterar esse colesterol. A pessoa com alto colesterol passa a tomar um remédio para controlá-lo, o que vai ter mais efeito do que ser extremamente rigoroso, mas tudo com parcimônia. Ou seja, não se deve comer a gordura da picanha todos os dias, se puder não comer nenhum dia é melhor, mas não é tão maléfico quanto se falava. Muitas vezes estaremos privando as pessoas de proteína, que é importante, sem grande efeito. É o mesmo caso do álcool, duas taças de vinho, duas latas de cerveja ou uma dose de destilado, parece não ter benefício. Não se pode anunciar isso, porque muitas pessoas vão começar a beber para se proteger. 

JM – Fatores genéticos interferem na ocorrência de infartos e outras doenças cardíacas?
Meneghelo –
 Isso se deve especialmente por dois aspectos dos fatores genéticos. Primeiro tem uma doença chamada hipercolesterolemia familiar. É uma doença rara em que as pessoas têm uma quantidade de colesterol muito exagerada. Existem crianças de 10 ou 12 anos que tiveram infarto em virtude da doença. Felizmente, hoje já existe tratamento para esse tipo de doença, tentando levar essas pessoas a uma vida adulta. No segundo problema não podemos atuar. O filho de um pai que morreu de infarto abaixo dos 50 anos ou a mãe que teve infarto com menos de 60 anos é um forte indício genético de que aquela família vai produzir elementos que vão levá-lo ao infarto ou à aterosclerose. Com todo o genoma que nós descobrimos, não há nada a se fazer para atuar nesse gene. O que se faz é o combate aos fatores de risco. Essa pessoa tem que fazer exercício, não pode engordar, e deve tomar outros cuidados. No futuro vamos descobrir quais genes podem controlar essas tendências. 

JM – O estresse hoje faz parte da vida moderna... Como é possível evitar o enfarto e conviver com esse mal?
Meneghelo – 
Quem não tem um pouco de estresse não progride na vida, já aprendi isso há muitos anos. E esse aspecto do estresse é inexorável no mundo de hoje. O estresse pode dar infarto em quem tem aterosclerose, mas o que nos preocupa mais, como elemento desencadeador, são algumas ocorrências que perturbam muito a vida das pessoas. Por exemplo, uma grande perda, que produz uma grande depressão. Isto é um fator de desencadeamento de infarto de forma expressiva. Pode haver influência ainda de uma separação. São fatos importantes, mas que as pessoas não têm dado a importância devida. As pessoas que sofreram essas perdas devem ser acolhidas de tal forma para que tentem se recuperar o mais rápido possível e, assim, evitar esse problema. Existem muitas técnicas para aprender a viver com o estresse, mas se a pessoa não conseguir, é preciso buscar ajuda de um psicólogo ou psiquiatra para combater. 

JM – Com medicamentos, inclusive?
Meneghelo –
 Inclusive com medicamentos em determinada fase, porém aí entram várias correntes. Existem psiquiatras que não recomendam medicamentos, mas há tratamentos extremamente prolongados e não se consegue ter uma ação rápida. A maioria dos médicos acredita que por um estresse ou um momento de desequilíbrio emocional curto a pessoa pode lidar com medicamentos, porque a medida ajuda seguramente. 

JM – Há duas décadas, as mulheres estavam praticamente livres de doenças cardíacas e da mortalidade por elas provocadas, mas hoje o problema está atingindo homens e mulheres igualmente...
Meneghelo –
 Acreditamos hoje que o menor número de casos registrados antigamente se deveu ao diagnóstico inadequado. Não conseguíamos fazer diagnóstico de infarto, doença coronária, na maioria das mulheres. Há 15 ou 29 anos, começou um movimento entre as sociedades médicas para alertar os cardiologistas sobre estes problemas que as mulheres têm. A mulher praticamente não é nada diferente do homem quanto à vida moderna. Ou seja, ela enfrenta os mesmos problemas. O fato é que em relação ao homem, estatisticamente, é uns 10 anos depois que começa a doença na mulher, e quando isso acontece, ela tem sintomas um pouco diferentes dos do homem. Às vezes é um cansaço, uma dificuldade de trabalho ou um pequeno peso, dor de cabeça, câimbra nos membros, insônia. É o que chamamos de sintomas substitutivos e que hoje servem de alerta para que a mulher procure ajuda. São coisas que não demonstram a angina típica ou a dor no peito comum nos homens, e os médicos não valorizavam isso de maneira expressiva. Então, é preciso ensinar as mulheres a valorizar esses aspectos de forma importante. Uma parcela dessa mortalidade entre as mulheres pode estar ocorrendo pela associação de fumo com o uso do anticoncepcional. Essas duas coisas geram trombose. Se a pessoa que já tem uma pequena placa de aterosclerose, desenvolve a trombose, provocada pelo aumento das duas substâncias no organismo, o resultado é o infarto. A mortalidade dos homens ainda é maior e está decrescendo em todo o mundo em relação às mulheres, mas só chamei a atenção que, na faixa de 30 a 40 anos, a mortalidade no Brasil Central é praticamente a mesma e tem caído. 

JM – Qual é a melhor maneira de prevenir infarto, aterosclerose, AVC e outras doenças cardíacas?
Meneghelo –
 Inequivocamente, o colesterol é um elemento importante, e quem tem o LDL elevado tem que se tratar. Dependendo da elevação, a pessoa pode começar com a dieta, mas para quem tem colesterol aumentado, não adianta fazer só dieta, vai ter que tomar remédio. Exercício para isso não tem nenhum efeito, ou seja, ele não atua sobre esse mau colesterol. A única coisa que aumenta o HDL, o colesterol bom, é o exercício físico. O HDL vai lá na artéria e retira ou diminui o LDL. Outra coisa gravíssima é o diabetes, e o diabético não se trata, e o tratamento é semelhante ao do hipertenso, é controlar. Dessa maneira, o diabético passa a ter um risco muito próximo ao de uma pessoa não diabética. Além disso, metade dos hipertensos não sabe que tem a doença; dos que sabem, metade toma remédio; e deste último grupo, metade se controla. Olha o número de pessoas hipertensas que não se controlam e não buscam tratamento! A hipertensão não dá sintomas e a única maneira de saber é medindo a pressão com o pediatra, o ginecologista, etc. Todo mundo tem que medir a pressão sempre que tiver oportunidade. O remédio é de graça para diabético e hipertenso, mas o que falta é informação. 

JM – Em termos de exercícios, o que é recomendado?
Meneghelo –
 Quanto mais, melhor. Quanto mais capacidade física a pessoa tiver, melhor será a saúde e menos doença ela vai ter. Mas o mínimo que uma pessoa deve fazer são 30 minutos por dia, de preferência cinco vezes por semana. Ela pode fazer esse período contínuo, de 10 em 10 ou de 15 em 15, até o nível dela ficar ofegante, mas poder conversar. Com isso, cai pela metade, ou até cinco vezes, a chance de adoecer. Perto de uma hora por dia, a pessoa terá uma ação adicional importante.







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